Sobre A Graça

Amados IIr::

Saudações nas quatro pontas do Sagrado Quaternário!

Muitos buscadores incautos confundem espiritualidade com paranormalidade – não anseiam por uma radical transformação e Regeneração de suas Vontades, mas por espécies de fantasia onírica, de transes passivos e estimulações hipnagógicas, respirando vapores cadavéricos naquelas regiões em que “cada flor traz uma serpente enrolada” (como disse uma grande Adepta).

Querido Irmão, não se embriague.

Carne sutil ainda é carne, e não confunda os “anjos de luz” que a ti se apresentam – cheios do briho fascinador da serpente astral – com a luz UNA E PURA do ILIMITADO. Caro buscador, as notas musicais mais altas (como as frequências emitidas pela música das esferas) são perfeitamente inaudíveis, tais como são imperceptíveis as ondas eletromagnéticas elevadíssimas que nos atravessam acima da luz visível. De maneira análoga, a LUZ ILIMITADA do PAI se apresenta a nós como um RAIO DE TREVA, tal como expusemos em um estudo anterior sobre a ILUMINAÇÃO PELO CAMINHO DAS TREVAS. A Sabedoria do Incriado de tal maneira excede a nossa que, a infinita sabedoria criatural, em comparação com esta, ainda estaria mais próxima da ignorância infinita do que de apreender minimamente algo deste Fogo Eterno Incognoscível.

Com outras palavras, estimado buscador, não tome pelo Reino Celeste aquilo que não passa de uma inebriante sombra espelhada por nosso próprio psiquismo. O que não quer dizer, todavia, que devemos desprezá-lo, mas apenas colocá-lo em seu devido lugar. Se olharmos para estas sombras tais como realmente são, como para o reflexo da Lua na Água – isto é, sabendo não estar a Lua ali submersa – então já não cometeremos o mesmo Erro de Narciso.

Há três séculos atrás, querido Irmão, a Hierarquia legou a Homens de Vontade operações e ritos por meio dos quais poderiam engendrar o Organismo Espiritual em si e receber progressivas confirmações do andamento de sua realização. A princípio, nossos Irmãos Maiores, mui louváveis agentes intermediários, deram-nos o Fenômeno como sinal de êxito, para que seguíssemos de regeneração em regeneração, de glória em glória, com Desejo e Perseverança. Entretanto, encantados como somos pela FORMA, tomamos a IMAGEM DA COISA pela coisa mesma, e o que antes nos instigava a perseverar na Senda tornou-se a própria coisa buscada, e foi quando nossos antigos irmãos prevaricaram e caíram nas garras da SERPENTE SIDERAL.

Acusado de desertor, foi nosso mestre LOUIS-CLAUDE quem tentou avisá-los do perigo das artes supracitadas. Na época, nossos irmãos equivocados continuaram tão afoitos por suas visões e fenômenos que, perdendo contato com o adepto que os havia instruído, entregaram-se desregradamente às mais variadas experimentações com aquelas regiões sobre as quais o Inimigo tem pleno domínio, e passaram a respirar os ares nervosos e éteres exaltados de damas histéricas em salas fechadas sob o império do sonho.

Queridos Irmãos – existe, de fato, o sobrenatural. Do latim SUPER(superior)NATURALIS(natureza), o termo em seu sentido puro refere-se a essa realidade Invisível que transcende e engloba nossas existências particulares. Porém, da mesma maneira que precisamos de um organismo NATURAL para experimentar a realidade fenomênica com nossos sentidos, também necessitamos de um ORGANISMO SOBRENATURAL para tornarmo-nos receptivos aos Dons e Inteligências do Espírito, através dos quais algo de divino poderá se fazer ouvir e realizar em nós.

Assim como realizamos atos desta natureza (dormir, comer, andar) com nosso organismo natural, também o exercício de certas Faculdades está intrinsecamente relacionado a nosso Organismo Espiritual – podemos citar, dentre estas, a Vontade, a Sabedoria, a Imaginação (Imaginatio), a Vida Moral, entre outras Atividades que abrem as portas superiores para o Invisível em nós. Todavia, da mesma forma que nosso Organismo Natural tem de ser gerado (como o é por nossos progenitores) e alimentado por nutrientes de sua própria natureza (alimentos materiais), esta Nova Alma também necessita de um Engendramento e de uma mui específica Alimentação.

Nosso Coração, de maneira análoga ao Óvulo, deve também estar fertilizado por nosso anseio incessante pela Regeneração, e devemos desejar ardentemente a fecundação pelo Espírito Santo. Uma vez gerado, este recém-nascido em nós necessita de um alimento muito especial, do qual a Hierarquia nos legou como símbolo os Sacramentos. É um processo análogo ao da Eucaristia, e por ela muito bem representado na sombra da matéria, mas que realizar-se-á no Invisível.

Meu Companheiro e Irmão, uma vez nascida em nós esta “Criança do Reino do Céu”, e só finalmente então, poderemos exercer plenamente nossas Faculdades e Potências, Virtudes e Dons Originais livres do brilho fulgurante da jóia do príncipe deste mundo. Ao contrário do que esperávamos, quando isso acontecer não necessitaremos mais de buscar ver coisas divinas e astrais com nossos olhos humanos, porque já encontraremos suficiente e infinita Graça e Contemplação em olhar as próprias coisas humanas e mundanas com nossos novos olhos assim divinizados. Sim, pois da mesma forma que um cão vive meio a tantos carros, sons, sinais, gente e palavras que não compreende (e, não obstante o absurdo disto cercá-lo, continua a ocupar-se de farejar e procurar comida), é apenas com o nascimento do Novo Homem que descobrimos, então, quão mortos e adormecidos estávamos espiritualmente. Com a Mente de Compaixão que engendramos em nós, o antigo reino samsárico, dialético e binário, dominado pela divisão e pelas Forças Gêmeas, transfigurar-se-á diante de nós em um verdadeiro Plano Divino, uma Unidade Absoluta onde não há conflitos e nem particulares, senão um único e mesmo Soneto Eterno manifestando-se através de todas as coisas e todos os seres para a Glória da Reintegração Universal.

Estaremos Salvos, querido Candidato, não por sermos privilegiados, seletos ou muito menos “Cavaleiros Eleitos”, mas por simplesmente termos despertado para este Campo Uno e Oniabarcante, com os olhos do qual podemos nos compadecer profundamente de todos os nossos Irmãos Equivocados que sofrem e causam sofrimento por sua própria ignorância e egoidade. Saibamos ouvir Deus, que nos fala sempre. Nutrindo e defendendo incessantamente nossa Cidade Santa, reconheceremos cada vez melhor as consolações e movimentos deliciosos do Invisível, a graça dosada e santificante que nos será concedida – não para fugirmos do Mundo e da Vida rumo a um Astral Pseudoceleste – mas para participarmos da Vida Divina aqui e agora, como Agentes, servindo e realizando aquilo que é da Vontade do Espírito em nós. Inferno era apenas estar cego para a Contemplação de Deus. E, assim como o sol doa amorosamente sua luz e calor para todos os planetas que o rodeiam, esperaremos esperançosamente sermos sóis para nós mesmos e para os outros, exemplos vivos da Lei do Amor, aquecidos não pelo Fogo Colérico da Impiedade, mas pela Luz Doce e Amorosa do Espírito Santo que há de fazer morada em nós.

Pelo divino quaternário:
Amor-Vontade-Sabedoria-Atividade,
Que as rosas floresçam em vossa cruz.

Freska u kaloti krstionice, manastir Žièa, Srbija

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Homenagem a um Menestrel

Batido pelos desenganos
no final dos anos volto pra ti ver
de capa e espada herói capitulado
faltoso confesso erros e pecados
que a cerviz de ferro loucos cometi
na mocidade o perpassar dos dias
a mim foi leve e sem agravar ninguém
pautei minha vida em segmentos breves
na aura perdida da distante infância
que mais nada deve além da vida
e a salvação da alma a Deus
e nada a ninguém mais
perdido andei na noite longa
com porcos pastei bem distante do lar
mil febres me queimaram o peito
te via em sonho a delirar
chegavas como o abrir das flores
silenciosa no jardim
do oitão daquela casa antiga
minh’alma oh amiga
já não canta mais!
São longos dias e bem grande é o tempo
Oh como lamento o estiolado em vão
fui perdulário em gastar dissoluto
horas e minutos que no Eclesiastes
em derradeiro canto estrofou Salomão
mas apesar de erros cometidos
em retidão a vida porfiei
vendi meus dias em instâncias medonhas
meu tempo querido numa terra estranha
pra desconhecidos de malévola sanha
que mal davam o pão do suor que lhes dei
rendido antes as vicissitudes
na velhice choro infância tão feliz
não juntei prata nem ouro
amar ninguém nunca me quis
minhas trovas pequeno tesouro
legado deixo aos filhos meus
e a mim resta a Esperança ainda
minha Noiva já és benvinda
Ó Morte eu vou pra Deus

RWS_Tarot_21_World

A Iluminação pelo Caminho das Trevas

[…]Liberto de tudo o que é visto e de tudo o que vê, penetra na treva do não-conhecimento, a treva autenticamente mística e, renunciando às percepções intelectivas, chega à total intangibilidade e invisibilidade; entrega-se inteiramente ao que está acima de tudo e de nada (e não é ele próprio nem outro), unindo-se da forma mais perfeita ao que é completamente incognoscível mediante a total inactividade do conhecimento, conhecendo além do espírito graças ao acto de nada conhecer[…] (Areopagita)

Chegar a esta treva mais que luminosa é o que suplicamos e, pela privação da visão e pelo não-conhecimento, ver e conhecer Aquele que está acima da contemplação e do conhecimento, precisamente pelo acto de não ver nem conhecer – nisto consiste, de facto, a verdadeira observação e conhecimento -, e celebrar Aquele que é mais que substancial de um modo mais que substancial, pela aférese sistemática das coisas existentes; tal o artista que esculpe uma estátua ao natural, desbastando todas as excrescências que entravam a contemplação pura da figura oculta, e apenas mediante essa aférese faz aparecer a formosura escondida tal como ela é em si mesma.

<<treva de silêncio, mais que luminosa ( … ) que na maior obscuridade é mais que manifesta, mais que brilhante e completamente intangível e invisível…». A ela se chega – lê-se – pelo distanciamento (ekstasei) ou renúncia <<de tudo>> e <<de todas as coisas>> com o auxílio, porém, da Trindade, ela que <<guarda a sabedoria divina dos cristãos>>. A treva é a ocultação dos mistérios da teologia (theologias mysteria) contidos nos escritos místicos (mystikon logion).

Assim ouvimos de São João da Cruz:

Das muitas imperfeições em que vivem os principiantes, o que até aqui referimos é suficiente para mostrar quão grande seja a necessidade de que Deus os ponha em via de progresso. Realiza-se isto na noite escura de que entramos a falar. Aí, desmamando-os Deus de todos os sabores e gostos, por meio de fortes securas e trevas interiores, tira-lhes todas estas impertinências e ninharias; ao mesmo tempo, faz com que ganhem virtudes por meios muito diferentes. Por mais que a alma principiante se exercite na mortificação de todas as suas ações e paixões, jamais chegará a consegui-lo totalmente, por maiores esforços que empregue, até que Deus opere passivamente nela por meio da purificação da noite.

É que na noite escura, — verificando-se a palavra do Profeta: “Luzirá tua luz nas trevas” (Is 63, 10), — Deus iluminará a alma, dando-lhe a conhecer, não somente a própria miséria e vileza, mas também Sua divina grandeza e excelência. Uma vez amortecidos os apetites, gostos e apoios sensíveis, fica o entendimento livre para apreender a verdade, pois é certo que esses gostos e apetites do sentido, mesmo sendo em coisas espirituais, sempre ofuscam e embaraçam o espírito. Além disto, aquela angústia e secura da parte sensitiva vem ilustrar e vivificar o entendimento, segundo declara Isaías: “A vexação nos leva a conhecer a Deus” (Is 28, 19). Assim vemos que à alma vazia e desembaraçada, bem disposta a receber o influxo divino, o Senhor, por meio desta noite escura e seca de contemplação, vai instruindo sobrenaturalmente em sua divina Sabedoria, como o não fizera até então pelos gostos e sabores sensíveis.

Surge, porém, a dúvida: por que à luz divina (que, conforme dissemos, ilumina e purifica a alma de suas ignorâncias) chama a alma agora “noite escura”? A isto se responde: por dois motivos esta divina Sabedoria é não somente noite e trevas para a alma, mas ainda pena e tormento. Primeiro, por causa da elevação da Sabedoria de Deus, que excede a capacidade da alma, e, portanto, lhe fica sendo treva; segundo, devido à baixeza e impureza da alma, e por isto lhe é penosa e aflitiva, e também obscura.

Para provar a primeira afirmação, convém supor certa doutrina do Filósofo: quanto mais as coisas divinas são em si claras e manifestas, tanto mais são para a alma naturalmente obscuras e escondidas. Assim como a luz, quanto mais clara, tanto mais cega e ofusca a pupila da coruja; e quanto mais se quer fixar os olhos diretamente no sol, mais trevas ele produz na potência visual, paralisando-a, porque lhe excede a fraqueza. Do mesmo modo quando esta divina luz de contemplação investe a alma que ainda não está totalmente iluminada, enche-a de trevas espirituais; porque, não somente a excede, como também paralisa e obscurece a sua ação natural. Por este motivo, São Dionísio e outros místicos teólogos chamam a esta contemplação infusa “raio de treva”. Isto se entende quanto à alma não iluminada e purificada, pois a grande luz sobrenatural desta contemplação vence a força natural da inteligência, privando-a do seu exercício. Por sua vez disse David: “Nuvens e escuridão estão em redor d’Ele” (SI 96, 2); não porque isto seja realmente, mas por ser assim para os nossos fracos entendimentos, os quais, em tão imensa luz, cegam-se e se ofuscam, não podendo elevar-se tanto. Esta verdade o mesmo David o declarou em seguida, dizendo: “Pelo grande resplendor de sua presença, as nuvens se interpuseram” (SI 17, 13), isto é, entre Deus e nosso entendimento. Daí procede que este resplandecente raio de secreta Sabedoria, derivando de Deus à alma ainda não transformada, produz escuras trevas no entendimento.

A terceira espécie de sofrimento e pena que a alma agora padece provém de outros dois extremos que aqui se encontram: o divino e o humano. O divino é esta contemplação purificadora, e o humano a própria alma que a recebe. O divino a investe a fim de renová-la, para que se torne divina; despoja-a de suas afeições habituais e das propriedades do homem velho, às quais está a mesma alma muito unida, conglutinada e conformada. E de tal maneira é triturada e dissolvida em sua substância espiritual, absorvida numa profunda e penetrante treva, que se sente diluir e derreter na presença e na vista de suas misérias, sofrendo o espírito como uma morte cruel. Parece-lhe estar como tragada por um bicho no seu ventre tenebroso, e ali ser digerida: assim padece as angústias que Jonas sofreu no ventre daquele monstro marinho. De fato, é necessário à alma permanecer neste sepulcro de obscura morte, para chegar à ressurreição espiritual que espera.

Pelo que já foi dito, vemos claramente que esta obscura noite de fogo amoroso, como vai purificando a alma nas trevas, assim também nas trevas a vai inflamando. Observamos igualmente que, assim como se purificam os espíritos na outra vida por meio de um tenebroso fogo material, de maneira semelhante são purificadas e acrisoladas as almas nesta vida presente, por um fogo amoroso, tenebroso e espiritual. E está aí a diferença: lá no outro mundo, a expiação é feita pelo fogo, e aqui na terra a purificação ilustração se opera tão só mediante o amor. Tal é o amor que pediu David ao dizer: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro” (Sl 50, 12): que a pureza de coração não é outra coisa senão o amor e graça de Deus. Nosso Salvador chama bem-aventurados aos puros de coração, o que é tanto como chamá-los enamorados, pois a bem-aventurança não se dá por menos que por amor.

Não quero deixar de indicar agora o motivo pelo qual a luz divina, embora sendo sempre luz para a alma, não a ilumina logo que a investe, como fará depois, mas causa primeiramente as trevas e sofrimentos já descritos. As trevas e demais penas que a alma sente quando esta divina luz investe não são trevas e penas provenientes da luz, e sim da própria alma; a luz apenas esclarece para que sejam vistas. Desde o princípio, portanto, esta divina luz ilumina, mas a alma tem de ver primeiro o que lhe está mais próximo, ou por melhor dizer, o que tem em si mesma, isto é, suas trevas e misérias, as quais vê agora pela misericórdia de Deus. Antes não as via, porque não lhe era infundida essa luz sobrenatural. Aqui se mostra a razão de sentir, no princípio, somente trevas e males. Depois, porém, de purificada por este conhecimento e sentimento, então terá olhos para ver, à luz divina, os bens da mesma luz. Expelidas, enfim, todas as trevas e imperfeições da alma, parece que aos poucos se revelam os proveitos e grandes bens que a mesma alma vai conseguindo nesta ditosa noite de contemplação.

Pelo que já dissemos, fica entendido quão grande mercê faz Deus à alma em limpá-la e curá-la com esta forte lixívia e este amargo remédio; purificação essa que se faz na parte sensitiva e espiritual, de todas as afeições e hábitos imperfeitos arraigados na alma, tanto a respeito do temporal e natural, como do sensitivo e espiritual. Para isto, Deus põe a alma na obscuridade, quanto às suas potências interiores, esvaziando-as de tudo que as ocupava; faz passar pela aflição e aridez às afeições sensitivas e espirituais; debilita e afina as forças naturais da alma acerca de todas as coisas que a prendiam, e das quais nunca poderia libertar-se por si mesma, conforme vamos dizer. Deste modo, leva-a Deus a desfalecer para tudo o que naturalmente não é Ele, a fim de revesti-la de novo, depois de a ter despojado e desfeito de sua antiga veste. E assim a alma é renovada, como a águia, em sua juventude, e vestida do homem novo, criado segundo Deus, como diz o Apóstolo (Ef 4, 24). Esta transformação nada mais é do que a iluminação de entendimento pela luz sobrenatural, de maneira que ele se una com o divino, tornando-se, por sua vez, divino. É igualmente a penetração da vontade pelo amor divino, de modo a tornar-se nada menos que vontade divina, não amando senão divinamente, transformada e unida com a divina vontade e o divino amor. Enfim, o mesmo se dá com a memória, e também com as afeições e apetites, que são todos transformados e renovados segundo Deus, divinamente. Esta alma será agora, pois, alma do Céu, verdadeiramente celestial, mais divina do que humana. Todas estas transformações até agora referidas, da maneira que havemos descrito, vai Deus realizando e operando na alma por meio desta noite, ilustrando-a e inflamando-a divinamente, com ânsias de Deus só e nada mais.

Quanto mais a alma se aproxima d’Ele, mais profundas são as trevas que sente, e maior a escuridão, por causa de sua própria fraqueza. Assim, quem mais se acercou do sol, haveria de sentir, com o grande resplendor dele, maior obscuridade e sofrimento, em razão da fraqueza e incapacidade de seus olhos. Tão imensa é a luz espiritual de Deus, excedendo tanto ao entendimento natural, que, ao chegar mais perto d’Ele, o obscurece e cega. Esta é a causa por que no Salmo 17 diz David, referindo-se a Deus: “pôs seu esconderijo nas trevas como em seu tabernáculo: águas tenebrosas nas nuvens do ar” (Si 17, 12). As “águas tenebrosas nas nuvens do ar” significam a obscura contemplação e divina Sabedoria nas almas, conforme vamos dizendo. Isto, as mesmas almas vão sentindo aos poucos, como algo que está próximo a Deus, e percebem este tabernáculo onde Ele mora, no momento em que Deus as vai unindo a Si mais de perto. E, assim, o que em Deus é luz e claridade mais sublime, é para o homem treva mais escura.

vanitas

Louis-Claude sobre o Daemon

O amigo fiel que nos acompanha aqui embaixo, em nossa miséria, está como aprisionado conosco na região elementar, e embora goze sua vida espiritual, não pode gozar sua Luz Divina, as alegrias divinas, a Vida Divina a não ser pelo coração desse mesmo homem que foi escolhido como o intermediário universal do bem e do mal. Esperamos desse amigo fiel todas as seguranças, todas as proteções, todos os conselhos que nos são necessários em nossas trevas, e todas as virtudes para suportarmos a lei de nossa provação, que ele não tem o direito de mudar o mínimo sequer; mas ele espera de nós, em recompensa, que, pelo Fogo Divino, do qual deveríamos estar inflamados, o façamos experimentar o calor e os efeitos desse sol interno do qual se mantém afastado pela caridade pura e viva que o anima em favor de humanidade infeliz. Esses são os tesouros prometidos à nossa alma, visto que, conforme dissemos acima, a divindade devia nos trespassar inteiramente para poder se estender até o amigo fiel que espera de nós essa alimentação divina, e para que interior e exteriormente possamos cumprir os planos originais de nosso princípio.

É tempo do Novo Homem começar sua missão. Sua idade terrestre está cumprida. Sua idade celeste vai começar. A primeira lei a que ele vai se submeter ao entrar nessa idade celeste, é o batismo corporal, e é necessário que receba esse batismo da mão do seu guia, para em seguida receber o batismo divino da mão do Criador. É o nosso companheiro fiel que está encarregado de realizar em nós esse batismo corporal, porque sua função é nos defender, nos preservar, nos purificar de tudo o que há de heterogêneo ao nosso redor, a fim de romper a barreira que nos separa de nosso único e universal princípio de reação, que é a divindade.

Esse anjo fiel, cheio de amor por nós, deseja certamente com muito ardor realizar em nós essa obra salutar, mas o deseja para seu próprio benefício, porque, segundo o que foi dito anteriormente, ele só pode gozar a Vida Divina por nosso intermédio. Não obstante, como todo o seu ser é humildade, ele espera, em sua doce paciência, que os momentos sejam chegados, que as medidas estejam no ponto, e, sobretudo, que lhe seja dada a ordem de cumprir a sua obra. Porque ele se dedicou a obediência, oferecendo-nos, assim, o primeiro exemplo de como nos devemos conduzir perante Deus.

Heis, com efeito, qual é a obra do Novo Homem durante a sua estada no deserto: levar a respiração do ar celeste e divino a esse amigo fiel, a quem o primeiro homem fez respirar continuamente um ar infecto depois do crime, enfim, arrancar das mãos do inimigo as porções dos tesouros divinos e as centelhas da própria verdade que permitimos algumas vezes que fossem roubadas ao abrir imprudentemente a nossa porta superior, sem tomar a preocupação de enxotar o inimigo para os seus abismos e fechar cuidadosamente sobre ele a porta inferior.

Nosso fiel companheiro desceu conosco até o nosso abismo, como o salvador desceu até o abismo universal. Ele verte suores de sangue conosco para nos ajudar a realizar essa transformação que estava tão visivelmente acima das nossas forças. Esse amigo fiel, trabalhando com tanta constância para a nossa regeneração, desenvolveu em nós o Novo Homem, que nos ensinou como podemos nos tornar terríveis para nossos inimigos, pois somos a palavra e o nome de Deus, e não há nada tão terrível quanto a palavra e o nome do Senhor.

socrate
Sócrates e seu Daemon, por Eugène Delacroix

Conselhos Combativos de Louis-Claude de Saint-Martin

Com efeito, nos deixamos prender vivos e em todas as nossas faculdades pelas cadeias do inimigo. Sentimos que esses grilhões nos esmagam e impedem todos os nossos movimentos; se tivéssemos, então, a coragem de dar um basta a esse inimigo e declarar-lhe que, conforme as intenções da vontade suprema e benfeitora, estamos determinados a romper todos os grilhões dos quais se serve para nos manter cativos, se anunciássemos com firmeza que ele deve ter em mente que seu reino sobre nós vai ser destruído, o que é fácil para nós, pelos recursos divinos que nos cercam, destruir esse reino como se fosse uma haste de palha; enfim, uma vez pronunciado esse basta, se não esquecêssemos de nada para executá-lo e prosseguir com constância nessa indispensável e necessária resolução, não é de se duvidar que logo veríamos tombar aos nossos pés todos esses entraves que nos constrangem tão horrivelmente, e nós os sentiríamos ser substituídos, ao mesmo tempo, por todo o entusiasmo da verdadeira vida, que nos seria tanto mais ativo e delicioso quanto mais nos tivéssemos livrado dos entraves. É essa passagem completa da morte para a vida que a alma do homem pode experimentar fisicamente em todas as suas faculdades quando, imitando a doce e humilde simplicidade do verbo e da palavra, consegue recuperar a força, o calor e a luz.

Só depois que esse grande movimento se realiza em nós é que colocamos o pé na linha, e após o que nos é prometido, devemos ver quanto nos custará o rompimento da barreira. Põe-te em sangue, põe-te em trapos, como ao passar através de sarças e espinhos; é apenas do outro lado da sebe que se encontra o tesouro. Tu falharás se, para cumprir esse empreendimento, esperares gozar o repouso e essas comodidades da vida; porque, se gozasses esse repouso e essas comodidades, precisaria esquecê-las por inteiro para seguir adiante. Como poderias pensar, então, em te apoiar em esperança, se ainda não as tens? O inimigo só sabe te enganar com essas considerações ilusórias; não disputes de maneira nenhuma com ele, mas prossegue sem lhe dizer nada. Porque, se o escutares, ele te enganará até o fim da tua vida com promessas lisonjeiras de circunstâncias mais favoráveis que não chegarão jamais se não as criares, isto é, se não as mantiveres fora dessa região de trevas.

Porque desde que essas circunstâncias aparentemente favoráveis chegarem para ti, o mesmo inimigo que se defende cobrará sua tarifa, fazendo-as diminuir ao ponto de torná-las quase nulas – para não dizer prejudiciais – e elas acabarão por te transformar em seu escravo e seu contribuinte, em vez da liberdade que julgavas gozar. Mas se criares tuas circunstâncias fora da região das trevas, o inimigo não poderá estabelecer imposição, nem mesmo saberá que essas circunstâncias existem, e tu o deixarás vagar no seu abismo, sem que possa perceber teus movimentos e teus resultados.

Mas, no momento em que ela se apresenta assim de súbito, fica por um instante imóvel e parece espantada como um ladrão que entrou numa casa que encontrou aberta e que de início ficou perturbado e preocupado quanto a alguém o estar observando, que procura descobrir como é a distribuição da casa e se sente como que aturdido com os diversos objetos que percebe e que tentam tanto mais a sua cupidez quanto ele não está acostumado a se ver em semelhante ambiente nem a desfrutar semelhante riqueza. Se não cuidarmos de repelir firmemente essa influência tão logo a percebemos, ela prossegue com seus desígnios criminosos e pode chegar afinal a se apossar da casa e dela expulsar o proprietário.

Mas, se nos pomos imediatamente a confundi-la em seus planos, ela foge pelo campo para os seus abismos, ou então sua forma se altera, varia e se decompõe, tudo mais ou menos prontamente e com mais ou menos diferenças, conforme empregamos mais ou menos forças, presteza e vivacidade para nos opormos aos seus esforços.

Alma humana, vês os homens que ainda estão no reino terrestre e material que fecharam as portas das suas cidades de guerra, após terem tido o cuidado de expulsar os inimigos e os malfeitores. Os homens no reino espiritual fazem o mesmo, para não correrem o risco de serem as vítimas da sua negligência. Pois se deixarem os inimigos os devorarão, sem que o saibam, durante o sono. Quantas aflições a aurora lhes revelará, abrindo-lhes os olhos apenas para lhes deixar ver sua escravidão?

Enche-te da convicção profunda de que por tua simples conduta, regular e atenta, o inimigo não terá sobre ti mais do que uma débil influência na qual não achará base para se fixar e se ligar.

Com efeito, por onde teus inimigos poderiam te atingir, se a santificação e a vida destruíram em ti todas as substâncias falsas sobre as quais teriam ousado exercer seus direitos? Por onde teus inimigos poderiam te atingir, se sentes mover-se em ti a força quádrupla do ser ordenador, santificador, dominador e conservador?

RWS_Tarot_11_Justice

Cantiga do Estradar

Tá fechando sete tempo
qui mia vida é camiá
pulas istradas do mundo
dia e noite sem pará
Já visitei os sete rêno
adonde eu tia qui cantá
sete didal de veneno
traguei sem pestanejá
mais duras penas só eu veno
ôtro cristão prá suportá
sô irirmão do sufrimento
de pauta vea c’a dô
ajuntei no isquicimento
o qui o baldono guardô
meus meste a istrada e o vento
quem na vida me insinô
vô me alembrano na viage
das pinura qui passei
daquelas duras passage
nos lugari adonde andei
Só de pensá me dá friage
nos sucesso qui assentei
na mia lembrança
ligião de condenados
nos grilhão acorrentados
nas treva da inguinorança
sem a luiz do Grande Rei
tudo isso eu vi nas mia andança
nos tempo qui eu bascuiava
o trecho alei
tô de volta já faiz tempo
qui dexei o meu lugá
isso se deu cuano moço
qui eu saí a percurá
nas inlusão que hai no mundo
nas bramura qui hai pru lá
saltei pur prefundos pôço
qui o Tioso tem pru lá
Jesus livrô derna d’eu môço
do raivoso me paiá
já passei pur tantas prova
inda tem prova a infrentá
vô cantando mias trova
qui ajuntei no camiá
lá no céu vejo a lua nova
cumpaia do istradá
ele insinô qui nois vivesse
a vida aqui só pru passá
nois intonce invitasse
o mau disejo e o coração
nois prufiasse pra sê branco
inda mais puro
qui o capucho do algudão
qui nun juntasse dividisse
nem negasse a quem pidisse
nosso amô o nosso bem
nossos terém nosso perdão
só assim nois vê a face ogusta
do qui habita os altos ceus
o Piedoso o Manso o Justo
o Fiel e cumpassivo
Siô de mortos e vivos
Nosso Pai e nosso Deus
disse qui havéra de voltá
cuano essa terra pecadora
marguiada in transgressão
tivesse chea de violença
de rapina de mintira e de ladrão

Elomar Figueira Mello

RWS_Tarot_20_Judgement

Epílogo de Eliphas Lévi

Graças vos sejam dadas, meu Deus, porque vós me chamasses a essa admirável luz. Sois a inteligência suprema e a vida absoluta desses números e dessas forças que vos obedecem para povoar o infinito com uma criação inesgotável. As matemáticas vos provam, as harmonias vos cantam, as formas passam e vos adoram! Abraão conheceu-vos, Hermes adivinhou-vos, Pitágoras calculou vossos movimentos, Platão aspirava a vós em tolos os sonhos de seu gênio; mas um único iniciador, um único sábio vos revelou aos filhos da terra, um único pôde dizer de vós: Meu pai e eu somos apenas um; glória seja, pois, para ele, pois que toda sua glória é para vós!

Pai, vós o sabeis, aquele que escreve estas linhas muito lutou e sofreu; suportou a pobreza, a calúnia, a proscrição odiosa, a prisão, o abandono dos que amava, e, no entanto, nunca se julgou infeliz, porque restava-lhe por consolo a verdade e a justiça!

Vós sois o único santo, Deus dos corações verdadeiros e das almas justas, e sabeis se algum dia acreditei estar puro diante de vós; fui como todos os homens o joguete das paixões humanas, depois venci-as, ou antes, venceste-as em mim, e destes-me, para que aí repousasse, a paz profunda dos que buscam e ambicionam a vós somente.

Amo a humanidade porque os homens, enquanto não são insensatos, nunca são maus a não ser por erro ou fraqueza. Amam naturalmente o bem e é por esse amor, que lhes deste como um sustentáculo em meio a suas provações, que devem ser reconduzidos cedo ou tarde ao culto da justiça pelo amor da verdade.

Que meus livros vão agora onde Vossa Providência os enviar. Se contiverem as palavras de vossa sabedoria, serão mais fortes que o esquecimento, se ao contrário contiverem apenas erros, sei ao menos que meu amor pela justiça e pela verdade lhes sobreviverá, e que assim a imortalidade não pode deixar de recolher as aspirações e os votos de minha alma que criastes imortal!

Eliphas Lévi

RWS_Tarot_05_Hierophant